Batendo um papo sobre meditação

21/03/2017

A meditação é, em essência, o treinamento sistemático da atenção. Ela tem como objetivo desenvolver a capacidade de concentração e enriquecer nossa percepção.

Quando a pessoa que medita volta a atenção para o seu interior, ela se torna mais consciente dos pensamentos, sensações e estados que emergem espontaneamente. Ocorre uma reorientação da percepção, o que auxilia na erradicação das fontes do sofrimento. A meditação pretende alterar o próprio processo de condicionamento, para que ele não seja mais o principal determinante dos atos futuros. Resulta na purificação de velhos hábitos e padrões de condicionamento.


"É a meditação que lentamente purifica a mente ordinária, desmascarando e exaurindo seus hábitos e ilusões, de maneira que possamos, no momento certo, reconhecer quem de fato somos."

Sogyal Rinpoche


Meditação é o único caminho para conhecermos a natureza da mente.

Por isso que a intensa prática de meditação produz muito desconforto inicialmente, pois é difícil se livrar de velhos hábitos e na prática da meditação tentamos substituir muitos de nossos velhos e negativos hábitos por outros novos. Isso vai contra a essência de nossas personalidades e, por isso, provavelmente será algo difícil e desconfortável.

A meditação pode ser uma autodessensibilização completa e bastante natural. Isso pode explicar a razão pela qual a tensão normalmente associada com o material reprimido diminui quando a meditação é usada como auxiliar da terapia, permitindo que o material que causava sofrimento venha mais claramente à consciência.

O primeiro passo ao lidar com qualquer emoção perturbadora é reconhecer os problemas que ela causa. A única forma de você reconhecer essas emoções é pessoalmente, a partir da sua própria experiência. O segundo passo é aprender a estabilizar nossas mentes para que possamos usar qualidades positivas, como amor e compaixão como uma ferramenta para responder a situações, em vez de automaticamente permitir que as emoções moldem a nossa resposta. O terceiro passo é tomar a decisão ou compromisso de não se deixar dominar por essas emoções perturbadoras, lembrando-nos periodicamente que não permitiremos que elas tomem conta de nós.

A tomada de consciência é o agente que transporta as mensagens que formam a experiência. As psicoterapias se preocupam com essas mensagens e seus significados. A meditação, em vez disso, dirige-se à natureza do agente: a própria tomada de consciência. Essas duas abordagens não são mutuamente excludentes, ao contrário, são complementares.

Pessoas que meditam regularmente se tornam ao mesmo tempo mais alertas e serenas em resposta a ameaças e se recuperam mais rapidamente. Se considerarmos que a fase de recuperação do estresse é a chave para os sintomas de ansiedade crônica e desordens psicossomáticas, verificamos que a meditação pode funcionar como uma terapia tanto no nível psicológico como no puramente somático, facilitando uma recuperação mais rápida de situações estressantes.

Torne-se cada vez mais presente, mais consciente dos seus atos. O agora é a única coisa que realmente temos.


Ilustração de Hannah Adamaszek
Ilustração de Hannah Adamaszek

Alguns benefícios da meditação

Nos últimos anos, a ciência vem comprovando a cada dia mais benefícios da prática meditativa. Grandes mudanças foram observadas em nível cerebral, como o aumento de áreas relacionadas à memória, cognição, aprendizado, tomada de decisões, empatia e compaixão, bem como a diminuição de áreas ligadas ao medo, estresse e ansiedade.

Um importante efeito da meditação é proporcionar ao seu corpo um repouso profundo, enquanto sua mente se mantém alerta. Isto faz baixar a pressão sanguínea e diminuir o ritmo do coração, ajudando seu corpo a se recuperar do estresse. O repouso profundo propiciado pela meditação traz outro benefício: ele reforça o sistema imunológico que é a defesa do seu organismo contra bactérias, vírus e câncer.

Alguns interessantes efeitos da meditação:

  • redução dos níveis de estresse;
  • aumento da capacidade de concentração;
  • aumento da capacidade de memorização;
  • desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático;
  • desenvolvimento da criatividade;
  • redução significativa da violência;
  • equilíbrio do campo emocional;
  • redução da dor crônica;
  • redução da ansiedade generalizada;
  • aumento da imunidade;
  • aumento da auto-estima e do amor-próprio;
  • aumento da compaixão, empatia e amor;
  • desenvolvimento da intuição;
  • uma maior conexão com o Divino que mora dentro de você.

"A paz que você procura muitas vezes está no silêncio que você não faz."


Integrando a meditação na ação

Integrar a prática da meditação com a vida de todo o dia é o propósito da meditação. Após meditar, é importante não se entregar à tendência que temos para solidificar o modo como percebemos as coisas. Quando você retorna à vida de todo dia, deixe que a sabedoria, a percepção de si mesmo, a compaixão, o humor, a fluidez, o espaço e o desapego que a meditação lhe trouxe penetrem na sua experiência cotidiana.

Então o que importa de fato não é só a prática de sentar-se para meditar, mais muito mais o estado da mente em que você se encontra depois da meditação. É esse calmo e centrado estado da mente que você deve prolongar em tudo o que faz.

A meditação promove uma transformação sutil, que não acontece apenas na sua mente e nas suas emoções mas também e realmente no seu corpo. E é muito curativa.


Como praticar - meditação para iniciantes

Crie um ambiente propício para sua prática. Inicialmente, procure um lugar calmo, com pouco interferência de ruídos externos. Se for do seu agrado, você pode acender um incenso ou perfumar o ambiente, colocar uma música que lhe agrade.

É importante que você estabeleça um tempo para meditar. Comece devagar, com apenas cinco minutos. Meditação é um exercício mental, que requer esforço e disciplina. Portanto, vá devagar.

Sente-se em uma postura confortável. O mais importante da sua postura é manter-se com as costas retas. A sua energia interior e sua respiração fluirão melhor desta forma, facilitando que você encontre um estado de repouso.

Suas pernas podem estar cruzadas ou, se preferir, você pode sentar em uma cadeira, com as pernas relaxadas. Mas lembre-se de sempre manter as costas eretas.

Feche os olhos. Conecte-se com seu corpo. Perceba-o, sinta-o. Estabilize-se na sua calma. Leve sua atenção para a sua respiração. Respire naturalmente, não force, só observe o seu ritmo natural.

Toda vez que você perceber que sua mente dispersou e que pensamentos estão presentes, calmamente retorne o foco para sua respiração. Não se julgue. Neste momento não há erros nem acertos. Apenas observe-se e concentre-se novamente na sua respiração.

Mantenha-se neste exercício durante o tempo estipulado.

Ao final, faça uma respiração profunda e retorne lentamente, abrindo os olhos delicadamente.


"A questão não é por quanto tempo você vai meditar, a questão é saber se a meditação de fato lhe traz certo estado de atenção plena em que você está um pouco aberto e pode entrar em contato com a essência do seu coração."

Sogyal Rinpoche



.: Que todos os seres sejam felizes :. 


Karina Hmeljevski

Kaká é bióloga, professora de Yoga, amante das artes, da natureza e de meditação.

*Para escrever este texto me baseei, em grande parte, nas ideias apresentadas nos livros "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer" (de Songyal Rinpoche) e "A Arte da Meditação" (de Daniel Goleman), além de outros conhecimentos transmitidos por grandes mestres budistas e adquiridos ao longo do caminho...